Quem sou eu
- INQUIETAÇÕES DE HERMANO MELO
- UM PROJETO DE ESCRITOR, O SERVO, O ESCRIBA E O SENHOR!
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sábado, 15 de janeiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
PATATI PATATÁ
O ORIGINAL JAMAIS SE DESORIGINALIZA
Não quero deixar nenhum leitor com nó na língua, nem de forma alguma tornar a leitura embaraçosa desde o título, pois essa não é a função do título e tão pouco do texto. Fazer texto complicado é palhaçada. É que de repente, vendo meu filho de apenas 6 meses muito entretido ao assistir um DVD da dupla Patati e Patatá, emocionei-me e direcionei meu olhar de educador com o que deparei: uma produção “limpa”, totalmente educativa e desprovida dos maldito duplo sentindo de canções que pais despreparados acreditam ser infantis.
Sentei-me ao lado do seu carrinho e ali voltei a ser criança, ao ouvir trava-línguas, cantigas de rodas e outras músicas que adormeciam, há mais de 20 anos, nessa cabeça que hoje confunde até os dias da semana. Porém, não estou a escrever memórias. Quero elogiar e divulgar um pouco da história desses palhaços que encantam até hoje com magia e maestria.
Todos conhecem a cantiga "Se você quer brincar, é com Patatá; Se você quer sorrir, é com Patati". Ela existe desde os anos 60 e jovens dos dias de hoje ainda reconhecem esses versos.
Patati-Patatá era uma dupla de palhaços formada, respectivamente, por Agnaldo Soares e Renato de Oliveira. Ambos começaram trabalhando como animadores infantis, concorrentes, no disputadíssimo mercado mineiro. Renato usava o nome artístico de Palhaço Patatá enquanto Agnaldo se denominava O Tirolez Sapeca. Após alguns anos, juntaram suas forças, surigia aí "Patatá e O Tirolez Sapeca".
Em meados de 1959, investidores cariocas fechassem um contrato de 10 anos de radiodifusão de programas infantis estrelado pelos dois. O contrato foi muito comentado pois girava na cifra dos mil milhares de réis.
Por volta de outubro de 1959, uma equipe de especialistas começou a desenvolver o formato, e inicialmente o programa se chamaria "Os Dois Sapequinhas", dica de Agnaldo inclusive. Mas Renato não abria mão de Patatá, seu apelido desde a infância, e queria "Os Dois Patatá". Depois de muita discussão, concordaram com "Patatá-Patatá", mas Agnaldo, insatisfeito como não podia deixar de estar, resmungou baixo "Vai te catar". Num pulo, um dos produtores exclamou "É ISSO, PATATI-PATATÁ".Esta dupla, alternando os seus atores continua até hoje alegrando a criançada! (retirado de http://luisones.allflow.com.br).
Isso é apenas uma pena do travesseiro que esses dois juntam ou esparramam entre gargalhadas no coração do pequeninos, com caras pintadas, mas sem máscaras, assinando contratos capitalistas mas sem vender a alma ao diabo, vendendo seu produto sem alimentar ilusões consumistas criar . Fica a dica par loiras e morenas e pra todos que usam em vão o nome de palhaço nesse pais de “políticos”: é possível produzir um material de qualidade, capaz de atravessar gerações sem fazer as crianças e seus pais de palhaços. Ganha disco de platina tripla sem jogar baixo; ganha com raça...
Se você quer ganhá faz melhor que Patati e Patatá! Falo batido pra não ficar sentido.
RICARDO ALCÂNTARA DE MELO
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
REMEXENDO MEU PASSADO
Matéria-prima: Mariana
Mariana, antes que eu te louve
por que diabos não me amas?
Sem respostas exatas
mesmo assim irei louvar
Ao brilho que faz inveja à lua
À grandeza que afoga o mar
Louvo-te porque teu olhar me inflama
porque tens olhar de cigana
E me desarma num simples abrir
dos teus quentes lábios de italiana
Doce Mariana, enquanto te louvo
pergunto por que diabos não me amas?
Mesmo assim continuas a ser louvada
porque te encontrar me deu novo alento
fez-se manhã minha madrugada
brotastes como flor em meu pensamento
Como me fazes florir todo dia
no galanteio de um breve momento
no medo da infeliz despedida
medo de cair em teu esquecimento
Por tudo isso, com isso tudo
ainda insisto em louvar-te!
Louvo-te porque amo-te
porque és amável e também durona
E és minha melhor metalinguagem
Mistura de Julia Roberts com Madona
Amo-te porque és matéria-prima
minha austera e servil poesia
Tu és alcóol e és chama
És minha doce e meiga MARIANA.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Relendo Vinicius
Para uma menina com uma flor
Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara- na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.
sábado, 20 de novembro de 2010
sonho de simplicidade
Sonho de Simplicidade- Ruben Braga
Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.
Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.
Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?
Mas para instaurar uma vida mais simples e sabia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse oficio absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo. mas deixasse a alma sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
lei do caminhao do lixo
Um dia peguei um taxi para o aeroporto. Estávamos rodando na faixa certa,
quando de repente um carro preto saltou do estacionamento na nossa frente.
O taxista pisou no freio, deslizou e escapou do outro carro por um triz!
O motorista do outro carro sacudiu a cabeça e começou a gritar para nós
nervosamente. Mas o taxista apenas sorriu e acenou para o cara, fazendo
um sinal de positivo. E ele o fez de maneira bastante amigavel.
Indignado lhe perguntei: 'Porque você fez isto? Este cara quase arruína o
seu carro e nos manda para o hospital!'
Foi quando o motorista do taxi me ensinou o que eu agora chamo de "A Lei
do Caminhão de Lixo."
Ele explicou que muitas pessoas são como caminhões de lixo. Andam por ai
carregadas de lixo, cheias de frustrações, cheias de raiva, traumas e de
desapontamento. À medida que suas pilhas de lixo crescem, elas precisam de
um lugar para descarregar, e às vezes descarregam sobre a gente. Não tome
isso pessoalmente. Isto não é problema seu!
Apenas sorria, acene, deseje-lhes o bem, e vá em frente. Não pegue o lixo
de tais pessoas e nem o espalhe sobre outras pessoas no trabalho, EM CASA,
ou nas ruas. Fique tranquilo... respire E DEIXE O LIXEIRO PASSAR.
O princípio disso é que pessoas felizes não deixam os caminhões de lixo
estragarem o seu dia. A vida é muito curta, não leve lixo. Limpe os
sentimentos ruins, aborrecimentos do trabalho, picuinhas pessoais, ódio e frustações.
Ame as pessoas que te tratam bem. E trate bem as que não o fazem.
A vida é dez por cento o que você faz dela e noventa por cento a maneira
como você a recebe!
sábado, 6 de novembro de 2010
Quando eu morrer quero ficar
MÁRIO DE ANDRADE
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade.
Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.